No coração das Amazônias

26.11.06

O Sul de Rondônia

Durante o anos de 2004 e 2005 fizemos várias viagens ao sul de Rondônia...

Nos municípios de Cerejeiras, Corumbiara e Pimenteiras do Oeste em Rondônia...

Muitos caminhos, fazendo levantamento de dados...

Usando mapas e imagens de satélite partimos para levantar os pontos de desmatamento recente e verificar com que tipo de uso eles estavam associados.



O governo do estado de Rondônia tem mantido bem as estradas vicinais. Durante todo o ano elas são trafegáveis e vc pode viajar relativamente tranquilo.

Rodamos mais de 2000 km dentro da área (que abrange os municípios de Cerejeiras, Corumbiara e Pimenteiras do Oeste). Muito chão e muita poeira por uma paisagem complexa e diversificada.

A região vai de morros e de um relevo bastante acidentado combinano, nos seus baixios zonas de cerrado e de pântano. Se você está pensando em diversidade biológica, ilhas de endemismo genético e aquelas outras palavras complicadas de que gostam os biólogos, é lá que deve procurar....Pimenteiras, principalmente, tem a maior área e mistura cerrado e pântanos de uma forma maravilhosa.



Regiões que combinam em uns poucos quilômetros, floresta tropical úmida, cerrado e zonas alagadas...com toda a mistura que isso pode produzir.



Costeando tudo, separando toda o território brasileiro da Bolívia está o maravilhoso, lindo, rio Guaporé...Que nasce no pantanal e desce até o madeira, sendo seu principal afluente nesta região.



A ocupação recente da região porém tem sido marcada pela expansão da pecuária (associada com grilagem e destruição das áreas de cerrado). Esta pecuária é extremamente diversificada e não é sempre uma atividade para garantir posse da terra simplesmente. A lógica que organiza parte da pecuária da região é empresarial. A qualidade das estradas e o capital disponível faz com que esta pecuária possa fornecer gado para frigoríficos em Vilhena numa escala bastante grande.



A agricultura de grãos também é algo que sempre foi praticado na região sul de Rondônia. Pequenos produtores, com trabalho familiar e poucos empregados são a regra para a região.
Conversamos com vários produtores. Eles estão expandindo a área plantada. Mas são sempre a parte menor no jogo pesado que, por um lado tem a política de câmbio e por outro os grandes traders do agronegócio.




O solo daquela região tem áreas bastante frágeis. Na beira de estradas, sem o tratamento adequado, surgem grandes áreas erodidas.


Os caminhos dentro do cerrado...Passam aí, bois, boiadas, motos e carros roubados, contrabando de coca... e, de vez em quando, uns pesquisadores incautos.

19.11.06

O dia em que foi possivel atravessavar o Purus a pe.


Em final de 2005 a Amazônia sofreu uma enorme seca. Frequentemente, essa seca eh associada erroneamente com o desmatamento na Amazonia. Essa foi considerada a maior seca da da Amazônia Ocidental em 102 anos e sua causa, na verdade, teria sido resultado de um aumento entre um e dois graus das águas do Atlântico, ao norte da América do Sul, resultando na diminuição da formação de nuvens. Quando fui com Lucilene para Sena Madureira e Manuel Urbano fazer um trabalho sobre a pesca fomos na confluencia do rio Iaco com Purus. Tiramos essa foto para mostrar o nivel do rio. Nesse dia era possível atravessar o Purus a pe.

18.11.06

Exclusões - As velhas e as Novas

O Brasil é um pais de várias exclusões...Claro que a exclusão (ou as exclusões sociais) são parte do cotidiano de muita gente...

Muros cercam palestinos em gaza, muros tentam isolar os estadunidentes (eles se chamam americanos) do resto dos mexicanos (e outros latinos como nós) pobres que vem trabalhar por tostões falando spanglish na gringolândia.

Na áfrica subsaariana, em 1997, 1,5 milhão de crianças ficaram órfãs (90% dos órfãos do mundo naquele ano) por causa "daquela coisa" - iyoyo, AIDS (http://www.webciencia.com/10_africa.htm). Pois é, onde a prevenção, o tratamento e a riqueza permitem...a AIDS está se tornando uma doença crônica grave...Na áfrica mata muito (mais de 25 milhões de pessoas).

Estas exclusões estão, ao mesmo tempo, distantes e visíveis pra gente. É fácil ver um muro...É fácil se emocionar com criancinhas africanas morrendo de AIDS. Difícil é lidar com as exclusões cotidianas, com o que nos parece normal e comum...

Uma amiga, outro dia...conversando sobre um projeto de casa que quer fazer, travou este interessante diálogo, que eu recriei de memória, acrescentando alguma pimenta:

Interlocutora - Onde vai ficar o banheiro de serviço?

Minha amiga - Não vai haver banheiro de serviço.

Interlocutora (Cara de espanto mal disfarçada) - Mas...Isso não vai ser um incômodo? ...não haver nem banheiro....sabe como é...Afinal...é uma complicação...vc ter o mesmo banheiro pro pessoal que trabalha em casa e pros seus eventuais convidados...(já disfarçando o desconforto como nossa cara de espanto). Afinal...no fim ficam..roupas...toalhas..coisas no banheiro...que vc não gostaria que estivessem lá...

Minha amiga - Não vai haver banheiro de serviço.


Neste lugar, muito bonito e arrumado, onde mora essa educada e esclarecida profissional liberal, as casas não tem muros na frente. As ruas são limpas e arborizadas, as crianças brincam de bicicleta e vão para a escola particular encontrar seus iguais. Seus carros tem ar-condicionado, e elas tem medo das outras crianças que vendem balas nas ruas.

Neste lugar, mucamas que servem suco e sanduíches para nossas crianças que jogam vídeo-game na sala ou no quarto, são um fato natural da vida, como os banheiros de empregada e os muros eletrificados que os cercam.

Nesse lugar, as bicicletas dos empregados são deixadas fora do espaço asséptico e isolado do sacrossanto paraíso de classe média...




Essa exclusão me impressionou...uma exclusão nova, do meio de transporte dos empregados do condomínio. Você não pode usar sua bicicleta dentro do condomínio. Tem, quando entra, que se reduzir à condição pedestre, pôr-se definitivamente no seu lugar. Lhe é vedado este conforto...



Em tempo...O guarda do condomínio, muito preocupado com a questão da segurança, me perguntou por que eu estava tirando aquelas fotos. Eu perguntei, por que as bicicletas ficavam ali fora. Ele candidamente me disse que era para "Evitar roubos no condomínio".

È difícil enxergar a exclusão assim, quando ela se torna parte do nosso cotidiano, quando ela vira um coisa natural...

Não sei o que pensar sobre isso. Não gosto, não quero viver num lugar assim.

Também não tenho lições nem saídas para tirar daí...É só a tristeza de enxergar a nossa capacidade criativa para inventar novas exclusões.

8.11.06

Y Ikatu Xingu.



Muitas vezes fui a Campinha Grande e pedi a mamae copias das fotos dos Kamaiuras. Ela nunca achava. Quando desmontou casa apos a morte de papai ela finalmente encontrou as fotos e me deu de presente. Sabendo que o Isa trabalhava na regiao e que o John Carter, um pecuarista amigo, viajava continuamente para a aldeia dos Kamaiura, scanei, copiei as fotos, em duas vias para mandar para a aldeias. Entretanto, em 2004 eu fui a Canarana na campanha Y Ikatu Xingu no inicio de nosso projeto de Boas Praticas no Xingu. Nesse evento, com mais de 200 representacoes indigenas, encontrei uma das Kamaiuras que foi fotografada em 1953. Esta senhora é a avó de uma dos presentes na reuniao que veio no dia seguinte para ver as fotos e reconhecer as pessoas. Quase todos ja estavam mortos, um pouco previsivel pelo site do ISA que relava grande morte por doenca em 1954, um ano depois da visita da minha mae. A avo do Leonardo Kamaiura entretanto era uma das pessoas na foto. Ela eh a india em pe ao lado do pilao na foto abaixo.

Sobre os Kamaiuras - Texto do ISA.



Texto extraido do site do Isa integralmente. Foto tirada na Viagem de Ruth Almeida, em 1953.

Os Kamaiurá jamais se afastaram de sua área de ocupação, na região de confluência dos rios Kuluene e Kuliseu, próxima à grande lagoa de Ipavu, que significa, na língua deste povo, “água grande”. Hoje em dia, a aldeia dos Kamaiurá se localiza cerca de dez quilômetros a norte do Posto Leonardo Villas-Bôas, a aproximadamente 500 metros da margem sul da Lagoa Ipavu e seis quilômetros do rio Kuluene, à sua direita. Constituem o território Kamaiurá imediato a aldeia, formada pelas casas e pelo pátio cerimonial, a mata vizinha, a lagoa de Ipavu e os riachos que nela deságuam.


Sua população, em 2002, somava 355 indivíduos, deflagrando um significativo crescimento demográfico em relação ao início da década de 70, quando eram 131. Em 1954, quando houve uma forte epidemia de sarampo na região, se viram reduzidos a 94, em contraste com 1938, quando eram cerca de 240, e no período em que foram visitados por Von den Stein, 1887, em que somavam 264 pessoas.

Kamaiuras fotografadas durante uma viagem feita por mamae em 1953.


Recife, outubro de 2005

Oriana:

A viagem que me fez, um dia, encontrar os Kamayurá, foi organizada pela Faculdade Nacional de Filosofia (Universidade do Brasil) para os alunos do curso de Geografia e História.
Dirigida pelo geomorfólogo francês Francis Ruellan, da Escola de Altos Estudos de Paris, foi realizada em 1953, durou mais ou menos 15 dias e foi feita num avião da FAB. Dela me lembro que levamos um fotógrafo e medicamentos de urgência, como soro antiofídico, pelo qual fiquei responsável, mas que não foi preciso usar.
Nessa viagem, ficávamos acampados em barracas mistas (rapazes e moças) para 7 pessoas, sendo que uma vez dormimos ao relento às margens do Rio Tapajós. Em algum lugar, tivemos o apoio da Fundação Brasil-Central — pode ter sido em Jacareacanga ou Xavantina. Nesta localidade, encontramos com os Xavantes que, por estarem brigando com os brancos, não nos deixaram entrar em sua aldeia. Por conta disso, tivemos sempre conosco três ou quatro índios xavantes nos vigiando.
Fizemos quase toda a viagem de avião, havendo um só pequeno trecho, perto de Aragarças, que foi feito de caminhão.
Em anexo, o roteiro da viagem, devendo acrescentar que o objetivo desta foi geomorfológico.
ROTEIRO:
Saída: Rio de Janeiro
1ª Parada – Bom Jesus da Lapa (BA)
2ª Parada – Carolina (MA)
3ª Parada – Manaus(AM): Ficamos hospedados no Hotel Amazonas (super chic) e estivemos num lugar chamado Cachoeirinha.
4ª Parada – Jacareacanga, às margens do Rio Tapajós (PA)
5ª Parada – Rio Culuene, afluente do Rio Xingu. Aldeia Kamayurá (MT).
6ª Parada – Xavantina (MT – GO), Rio das Mortes, afluente do Rio Araguaia.
7ª Parada – Aragarças (GO), passando por Barra do Garça (MT - GO). 8ª Parada – Rio de Janeiro

Galinhas em Santa Maria do Tapara

2.11.06

Locadora de DVD



Nos longos caminhos de Sao Sebatiao da
Boa Vista, uma locadora de DVD.